Mulheres do Brasil
O que em você não pode calar?
Ação artística de Raquel Fayad, sobre feminicídio e violência de gênero.
Em Itu, cidade do interior paulista marcada por forte tradição histórica e cultural, os casos recentes de feminicídio e tentativas de feminicídio evidenciam que a violência contra a mulher não é um problema apenas dos grandes centros, ela atravessa o interior paulista e todo o Brasil. Os registros policiais e coberturas regionais em Itu mostram um padrão que se repete nacionalmente: relações íntimas marcadas por histórico de agressão, mulheres com medidas protetivas já concedidas e falhas estruturais na efetivação da rede de proteção, que dificultam a punição imediata e efetiva.
Organizações locais, como a ONG Não Posso Me Calar (Itu) e outras no Brasil, como a ONG Serenas, têm atuado na escuta, acolhimento e orientação de mulheres em situação de violência, revelando que o enfrentamento exige articulação entre poder público e a sociedade civil.
É nesse contexto que surge a Ação Artística “Mulheres do Brasil – O que em você não pode calar”, idealizado pela artista multimídia Raquel Fayad.
Neste projeto, a artista transforma dados e narrativas sobre violência de gênero em ação artística num campo sensível onde ética e estética se atravessam e se experimentam coletivamente. Ao convidar o público a estar presente nas ações, cria deslocamentos sutis de percepção, questiona estruturas de poder, expondo tensões sociais ao transformar o silêncio em presença e o privado em experiência pública.
Em 2026, o cenário nacional reforça essa urgência. O Ministério da Justiça e Segurança Pública apontou 2025 como um ano recorde, com mais de 1.470 feminicídios registrados até dezembro. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) divulgou aumento de 17% nos julgamentos desses crimes, enquanto o Senado Federal acompanha a aplicação da Lei 14.994/2024, que endureceu as penas para 20 a 40 anos de prisão.
Apesar do avanço legislativo, pesquisas do DataSenado e análises da Rede de Observatórios da Segurança (projeto Elas Vivem) e da Agência Patrícia Galvão revelam um dado alarmante: a maioria das vítimas já havia denunciado o agressor ou possuía medida protetiva. O debate atual se concentra justamente na falha da proteção e na necessidade de romper o ciclo da violência.
No campo acadêmico, pesquisadoras como Lilia Blima Schraiber e Ana Flávia P. L. d'Oliveira demonstram que a violência de gênero deve ser compreendida como questão estrutural e de saúde pública. Não se trata de episódios isolados, mas de um fenômeno sustentado por desigualdades socioeconômicas, culturais e simbólicas. Jornalistas como Cristina Fibe, especializada na cobertura de violência contra meninas e mulheres, têm chamado atenção para a forma como a mídia noticia esses crimes, defendendo que o foco seja deslocado da narrativa que romantiza o “crime passional” para a responsabilização do agressor e para a compreensão do feminicídio como crime de ódio.
É nesse contexto que surge a Ação Artística “Mulheres do Brasil – O que em você não pode calar”.
Partindo de Itu como território concreto, com seus casos, suas redes de apoio e suas lacunas, o projeto propõe transformar dados em presença, silêncio em voz e estatística em experiência sensível. A pergunta “O que em você não pode calar?” opera como dispositivo artístico e político: convoca mulheres a expressarem aquilo que historicamente foi silenciado e convida a sociedade a escutar.
Galeria
Confira imagens do evento realizado no dia 28 de março de 2026, no Ateliê Raquel Fayad e Estúdio Extraordinário.